Recebi o release que trazia esse título e me deparei com a lembrança de duas matérias sobre a mesma discussão, ou melhor, reflexão. A primeira fora um bate-papo com reportagens feitas pelo programa Saia Justa, que é exibido no canal de TV a cabo GNT, à época de sua reestréia com novo elenco: Mônica Waldvogel, Christine Fernandes, Teté Ribeiro, Dan Stulbach, Leo Jaime, Du Moscovis e Xico Sá.

Faz tempo, viu, mas me recordo que eles falavam sobre temas pertinentes a diferenciação feita pela sociedade para homens e mulheres, envolvendo seu papel na comunidade, cobranças, expectativas, serviços, competição, intimidades e equilíbrio, aquela velha discussão de sempre… E o que me chamou a atenção, em especial, foi a participação de uma entrevistada (em vídeo) que estimulava as mulheres mães a libertarem seus filhos da culpa. Dizia ela: “educar sem culpa seria uma coisa ideal, maravilhosa”. E os exemplos rapidamente lançados por Monica Waldwogel complementavam: “filho come mais um pouquinho senão a mamãe vai ficar triste”, enquanto um pai diria “come aí, mas se não quiser comer, não come, vai ficar fraquinho”.

Tsc, tsc… Eu me reconheci nessa! Eu não negocio comida, jamais, explico, oriento e insisto se for o caso, mas sem essa de vai ganhar um prêmio “se” comer ou vai me deixar triste “se” não o fizer. Porém, quando meu filho fala coisas feias como um “cala a boca” ou “idiota” fico mortificada porque isso se choca com a forma com que ele é tratado sendo também diferente das palavras que ouve dos pais, avós e tios, então, sim, digo a ele que isso me deixa “triste”. Será que estou gerando um caminhão de culpa no meu gurizinho?! Ai, ai, ai!

Recentemente o pai prometeu ao pequeno que se comesse bem, entre outras coisas do cotidiano, ganharia um brinquedo bem legal a escolher… Imaginem a minha cara quando o CJ contou para as amiguinhas da escola – que estávamos recebendo num tarde de Halloween – que essa era a condição para ter a casa do Batman. Pois é, morri de vergonha e mais tarde papai e eu conversamos. Papai disse que já estava perdendo as esperanças e achou que uma “chantagenzinha” não faria mal. Será? Eu não sou a favor, como não sou também de dizer que a criança irá apanhar ou ficar de castigo quando os pais não terão coragem de fazê-lo justamente por caminharem por uma linha de educação e criação que não apóia castigos corporais. Ando pensando sobre as crianças que conheço e a nossa, claro, sempre chegando à conclusão que – e cada caso é um caso – a conversa, a clareza das relações e não voltar atrás nas coisas que se diz é que resolvem tudo. Vou continuar praticando para descobrir.

Enquanto isso a sensação de culpa, àquela mesma que todo mundo conhece, às vezes vem permear nossas idéias. Então, achei interessante compartilhar as opiniões da psicanalista Ana Maria Rocha, da Clínica CPPL, onde ela explica que grandes transformações sociais e econômicas trouxeram mudanças na configuração familiar e na forma de cuidar dos filhos… >> parece o que nossa querida Tânia Zagury fala com freqüência, né? Então… E o antigo modelo no qual a mãe era a rainha do lar e o pai o provedor não cabe mais na realidade familiar contemporânea e muitos pais não conseguem lidar com essas mudanças, sentindo-se em falta com os filhos por não corresponderem ao antigo modelo por eles idealizado (e muito provavelmente vivenciado enquanto filhos), gerando assim o sentimento de culpa.

“Hoje, as famílias precisam conciliar o forte ritmo de trabalho com as responsabilidades da rotina familiar. Acaba sendo frequente encontrarmos entre os pais o sentimento de estarem abandonando seus filhos”, explica Ana Rocha. E eu vejo isso claramente entre as mães que retornam da licença maternidade ainda atormentadas com a idéia da fragilidade de seus bebês.

“Atormentados pela culpa de não serem bons pais, eles acreditam estar em dívida eterna com seus filhos, o que pode acarretar uma dificuldade de dizer não, de mostrar-lhes os limites de seus direitos. No entanto as concessões descabidas são prejudiciais para o amadurecimento das crianças”, alerta. E isso, todo mundo sabe. As conseqüências todos já vimos e presenciamos ainda mais fortes da adolescência desenfreada e rebelde e nos jovens adultos que possuem enorme dificuldade em lidar com suas próprias emoções e cobranças sociais.

Essa dinâmica, consciente ou inconsciente, gera uma insatisfação generalizada. Nada que os pais fazem pelos filhos é reconhecido como suficientemente bom. Nem por eles próprios, nem pelos filhos. As crianças percebem nas entrelinhas e estimulam um círculo vicioso de insatisfação e exigências cada vez maiores. E é neste ponto que devemos nos observar falhando, negligenciando ou exagerando, para tentarmos conciliar as coisas e corrigir em tempo de todos se sentirem plenos em suas “funções” satisfatoriamente felizes.

Vale lembrar, de acordo com a psicanalista, que “cada criança é única e não vem com manual de instrução. Não existem receitas e isso, muitas vezes, deixa os pais inseguros e desamparados. Principalmente nesses novos tempos, que têm exigido de cada um infindáveis elaborações, readaptações e construções do seu jeito próprio de ser pai ou mãe”.

Se conselho fosse bom, dizem que se venderia, mas como ainda acho que dicas de uma mãe para a outra podem sempre ser bem vindas, acho que transparência, intimidade, interesse real nos filhos e grandes doses de empatia e amor são grandes aliados pra mandarmos a culpa embora de vez e nos sairmos muito bem na tarefa de educar. E você, o que acha? Como lida com a culpa no dia a dia?

P.S. lembretes…

Antes que esqueça, a segunda referência sobre a culpa li na edição de outubro de 2011 da revista Pais e Filhos. E alguns artigos que tem a ver com esse papo, vocês lêem na coluna Mulher 7X7 da revista Época, sempre muito bons.

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3 Responses so far.

  1. Tiffany Stica disse:

    Postei, indico Relação pais e filhos: como lidar com o sentimento de culpa http://t.co/yXb865Pf

  2. Ah, Ti, tão pertinente este assunto! E ao mesmo tempo, tão complicado de lidar. Aqui não tem promessa de nada, nem material (tipo vamos para Disney quando…) nem emocional (vou parar de fazer isso quando você parar de fazer aquilo ou tirar aquela nota), mas mesmo assim sempre estamos convivendo com o fantasma da culpa.
    Realmente é um tema que exige nossa reflexão.

    P.S. Vc viu meu post de ontem do #MemeDasAntigas? A culpa de escolher ainda me assombra http://www.samshiraishi.com/em-2011-eu-pela-primeira-vez-memedasantigas/

  3. Tiffany Stica disse:

    Refletindo sobre… Relação pais e filhos: como lidar com o sentimento de culpa http://t.co/DDOLadMj #vidademae

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