Descobrindo o Mutismo Seletivo
Em maio deste ano eu li uma reportagem que falava sobre o Mutismo Seletivo em crianças e, embora não soubesse muito a respeito, me ative ao texto com interesse porque o filho de uma amiga querida, agora com 3 anos completos, ainda fala pouco, parece tímido e começa a angustiar a mãe. A chamada da reportagem da Revista Crescer apontava para o fato de que o mutismo seletivo não é vergonha da criança e foi aí que me flagrei ignorando totalmente as definições deste problema tão sofrido para inúmeras crianças mundo afora.
Explico melhor, com base em informações que colhi hoje, no site do Instituto do Mutismo Seletivo, após conversar com essa mãe que me apontava detalhes do comportamento do filho e das dificuldades enfrentadas por eles.
A incidência deste problema é de aproximadamente 1 a 7 por cada mil crianças. Algumas das características típicas deste problema são as seguintes:
- Dificuldade para manter contato visual;
- Evitar sorrir e expressar emoções faciais;
- Permanecer quietos fisicamente;
- Maior ansiedade quando se dá a situação em que o uso da fala é esperada pelos demais, a exemplo de respostas a perguntas simples, cumprimentos, etc.;
- Tendência a preocupar-se pelas coisas muito mais do que o normal;
- Maior sensibilidade com relação ao barulho, sons estranhos e aglomerações de gente;
- Dificuldade com a expressão verbal e não verbal quando em situações sociais experimentadas como inseguras-estressantes;
- Às vezes, medo de usar banheiros públicos;
O engano, ou melhor, a confusão que se faz entre a possível timidez de uma criança e o distúrbio em si, ocorre justamente porque as crianças vítimas do mutismo seletivo acabam ficando com a fala e expressões comunicativas bloqueadas quando se deparam com pessoas desconhecidas ou até que não inspirem a elas muita confiança/segurança. Especialistas apontam para o fato de crianças que falam – mesmo que seja pouco – com seus pais em casa e com professores na escola, podem evitar qualquer palavra ou reação à frente de visitas ou pessoas novas no convívio familiar.
No caso dessa minha amiga, o filho fala pouco e com dificuldade, emitindo sons e sílabas, o que manifesta seu conhecimento sobre as coisas ao redor, mas sem concluir expressões ou pronunciar palavras do cotidiano de forma correta. Em visita a fonoaudiólogos e pediatras nada de “errado” foi constatado como por exemplo, audição prejudicada ou semelhante. Embora haja para essa criança amor de sobra, carinho e motivação para que fale e se expresse numa parceria da família e da escola, ele pouco tem evoluído neste sentido e a mãe tem vivido dias de angústia e incerteza. Falávamos eu e ela que os pediatras apontam para a “normalidade” desse caso e indicam que o “tempo” irá ajudá-lo a falar e se expressar gradativamente. Mas, cá entre nós, quem conhece o filho melhor do que a própria mãe? E se a mãe acha que há ali algo de errado, seja baseada na intuição, no sexto sentido ou na comparação com o comportamento dos outros filhos (irmãos) restaria a ela apenas o título de mãe neurótica? Complicado… e se o pequeno está sofrendo com tudo isso… como ajudar?
A timidez não paraliza uma pessoa, no entanto, o Mutismo Seletivo sim. A impossibilidade de falar devido à grande ansiedade quando a fala é mais necessária cria significativas dificuldades de se desenvolver bem e socializar-se na escola e em outros âmbitos sociais, onde se espera que a criança fale. Daí a necessidade de contemplar-se um apoio adequado para a criança, onde a reduzida autoestima se apresenta pela frustração e o mal temperamento dos adultos, a exemplo de professores, companheiros de escola e demais pessoas. É fundamental levar em conta a necessidade de um apoio adulto e sensível com o fim de promover a autoestima e desenvolvimento da criança, para que possa vencer esta limitação e não criar outro probema de ansiedade mais adiante.
A reportagem da Crescer entrevistou Elisa Neiva de Lima Vieira, psicóloga clínica, que trabalha há mais de 15 anos com crianças com essa dificuldade e à revista, ela explicou mais sobre o distúrbio, apontando sinais que indicam que uma criança possa tê-lo e como os pais e profissionais devem agir para ajudá-la a superar o problema. Segue trecho da entrevista abaixo, transcrito como no site*.
CRESCER: Quais são as principais diferenças entre timidez e mutismo seletivo?
Elisa: Uma criança tímida tem dificuldades de vínculos e contatos, obviamente, mas ela não deixa de exercer suas atividades devido à impossibilidade de falar. A criança com mutismo seletivo simplesmente pára de se comunicar – ela passa a usar o “não falar” como forma de defesa emocional. Mas é preciso fazer uma avaliação com um especialista para ter certeza sobre o diagnóstico. Talvez por esta razão as crianças com mutismo seletivo ainda sofram muito, porque professores, pais, profissionais em geral e a própria sociedade brasileira ainda não têm este olhar. Os colegas de classe acabam incluindo a criança em rodas de chacotas, de bullying.CRESCER: O que pode causar esse problema?
E.N.L.V.: As pesquisas recentes e a prática clínica mostra que pode estar relacionado com situações traumáticas vividas pela criança, de ordem física (violência física), ou psicológica (quando ela vivencia uma desintegração familiar, por exemplo).CRESCER: Em que faixa etária é mais comum?
E.N.L.V.: Percebemos que o início do mutismo seletivo está na faixa etária dos 3 anos de idade, quando a criança já tem a fala adquirida.CRESCER: O que os pais (e a escola) precisam prestar atenção?
E.N.L.V.: A criança com mutismo seletivo para de se comunicar em ambientes sociais e, nesta faixa etária (3 a 6 anos) podemos observar mais casos nas escolas, lugar onde a criança começa a passar a maior parte de seu tempo. Ela mantém o contato verbal com pais, familiares e eventualmente algum amiguinho que ela possa eleger, mas para de falar com outras pessoas. Não pede aos professores para ir ao banheiro, beber água.
Com o tempo e a persistência desta negação em falar, os pais começam a perceber que não é uma simples dificuldade de comunicação. É comum que com o passar do tempo ela vá restringindo ainda mais as suas relações, caso o problema não seja avaliado e tratado em tempo hábil. Os pais devem procurar ajuda caso essa situação persista por mais de um mês. A criança com mutismo seletivo, por si só, sofre muito com a ansiedade, e por vezes traz sintomas secundários associados, como transtorno obsessivo compulsivo e tic nervoso, por exemplo.CRESCER: Quanto tempo de terapia é necessário?
E.N.L.V.: Depende da criança, do caso e do tipo de terapia. Primeiro o terapeuta precisa conseguir criar um vínculo forte com a criança para só a partir daí conseguir resultados, e avaliar conforme a criança consegue responder ao problema. Não dá para estimar um tempo preciso.CRESCER: Uma criança que superou o mutismo seletivo pode voltar a desenvolvê-lo mais tarde?
E.N.L.V.: É provável. Como esse distúrbio é de ordem psicológica e geralmente é provocado por um trauma, nada impede que uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto que teve o problema anteriormente volte a desenvolvê-lo diante de uma outra situação traumática.CRESCER: Como tratar o problema?
E.N.L.V.: Eu acredito muito em um trabalho conjunto entre pais, terapeuta e criança. O terapeuta tem que ser maleável o suficiente para poder entender e atender ao pedido de seu paciente. É desejável que a criança seja avaliada por um psiquiatra especialista em psiquiatria infanto-juvenil, pois, segundo a análise do terapeuta, pode-se iniciar um tratamento medicamentoso (ou não). Eu peço sempre aos pais que conversem com seus filhos sobre o problema que ele enfrenta, não escondam nada, não procurem profissionais “in off”. A criança precisa lidar com a realidade, com a verdade. Os adultos também precisam aprender isso.***
Sugiro a leitura de dois posts sobre Os mitos mais comuns associados ao Mutismo Seletivo, parte I e parte II
São textos agradáveis e rápidos de ler. E assim vamos todos conhecer um pouco mais sobre este transtorno que afeta crianças silenciosamente…
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Achei essa reportagem sua muito interessante assim como a entrevista com a psicóloga feita pela Revista. Um assunto muito delicado e subjetivo, mas que precisa ser mais discutido e conhecido como vc disse. Vou indicar aos meus.
Nancy
@blogdati Reply:
julho 8th, 2010 at 9:14 pm
Nancy, agradeço a visita e a indicação. Creio que quanto mais discussão houver e mais pudermos colher sobre o tema, melhor para o nosso aprendizado seja sobre este assunto ou qualquer outro.
Abraços
Ti, tudo bem? não conhecia essa definição de mutismo seletivo não. Como a grande maioria do povo eu achava que essas crianças fechadas eram apenas tímidas, não imaginava que poderiam sofrer e muito menos que desejam falar sem conseguir pela insegurança e ansiedade. Foi muito bom conhecer mais. Agora vou ficar de olho no site indicado e nas crianças ao nosso redor. Beijinhos pra vc, Isa
@blogdati Reply:
julho 8th, 2010 at 9:12 pm
Isa, parecem ser “simplesmente tímidas” e assim vão crescendo e sofrendo e o tempo vai passando… que sofrido, não?! Eu tb estou começando a conhecer melhor o tema agora, mas vou ficar super alerta.
Obrigado
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Ti
Esse post tem muito a ver comigo. Ao ler relembrei muitos fatos da minha infância, muitos me marcaram com certeza, mas vou compartilhar alguns aqui. Ja no período escolar essa ansiedade que força a calar me fazia segurar a vontade de ir ao banheiro para não precisar pedir e passar a vergonha de não conseguir segurar e me molhar em plena sala de aula. Ir acompanhada até a escola e assim que a pessoa ia embora ao me deixar no portão eu voltava para casa sozinha porque não conseguia dizer a professora que não fiz a lição, fugir de uma chamada oral, não brincar no recreio e se esconder no banheiro. Em casa era mais fácil as vezes por não receber muita atenção e outras por saber que para o meu pai bastava escutar, que não esperava eu falar. E isso sem uma devida atenção pode evoluir para uma fobia social.
Vale lembrar que o calar não é uma opção da pessoa, e sim um silêncio imposto pela ansiedade involuntária que experimenta.
@blogdati Reply:
julho 8th, 2010 at 9:11 pm
Maria, eu não imaginava que você havia passado por essas situações e honestamente, me envergonho até em dizer, mas nunca pensei que crianças podem vivenciar situações assim porque eu fui uma criança que embora odiasse ir para a escola, já estando lá me soltava normalmente. E tb sempre fui a metida a fazer justiça então, falava e me mexia demais. Me causa pesar imaginar a ansiedade e a aflição de uma criança que foge da escola por medo de confrontar e conversar seja com a professora ou com os coleguinhas. E claro, me interessa conhecer mais esse universo, pois vejo que dialogando, postando e conversando a respeito nós – mães – podemos ajudar outras e até propagar o tema que é tão “desconhecido”, para identificar mais facilmente essas dificuldades junto a nossas crianças.
Obrigado por compartilhar, fico muito feliz em contar com a sua colaboração sempre! Um beijo
Não posso deixar de comentar este post e os comentários aqui deixados. Eu sofri de MS durante mais de 10 anos (neste momento tenho 18 e, apesar de todas as marcas e obstáculos que ainda permanecem, posso afirmar que já ultrapassei). É estranho dizer que continuei a sofrer de MS até uma idade avançada porque, geralmente, esses casos são ultrapassados ainda na infância.
Compreendo perfeitamente o que foi dito num comentário anterior, por Maria Kacinskas, porque também eu passei por várias situações parecidas (incluindo a de estar “aflita” para ir à casa de banho e tentar aguentar até ao último minuto para não pedir). Foram tantas as situações difíceis, diria até humilhantes, tudo para evitar falar. Todas as fobias são angustiantes mas o mutismo selectivo é uma daquelas que consegue tirar-nos por completo a liberdade e o bem-estar. É uma prisão, algo que quem nos rodeia não consegue compreender porque para eles falar é tão simples.
Criei um blog há vários anos atrás, na tentativa de encontrar alguém que me compreendesse de verdade (sem ser um profissional) e com quem pudesse partilhar a minha experiência mas não consegui, até à data, manter contacto com alguém mais crescido que tivesse na mesma situação que eu.
Peço desculpa pela invasão mas não resisti a comentar.
Os meus cumprimentos à “mãe, mulher e cidadã”, autora do blog, por ter dedicado um pouco deste seu espaço a um assunto tão desprezado e ignorado no nosso país.
Neste caso, refiro-me a Portugal. Não sei qual o seu país mas ‘bem-haja’ de qualquer modo
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Inicialmente gostaria de parabenizá-la pelo blog e pelas informações nele contidas. Refazendo minhas pesquisas sobre Mutismo Seletivo me deparei com a gentil citação feita por você! Esta é a possibilidade que temos de fazer com que o Mutismo Seletivo seja mais estudado, pesquisado saindo da falta de conhecimento. Dra. Elisa Neiva de Lima Vieira