Solidão de mãe, texto de Fabrício Carpinejar

Posted by @blogdati On março - 11 - 2010 6 Comments

Gostaria de indicar a leitura desse texto preciso sobre um dos maiores desafios da maternidade, especialmente nos primeiros meses como mulher-mãe. A autoria é do jornalista e escritor Fabrício Carpinejar e me foi gentilmente enviado por uma amiga querida, Maria. Obrigado.


Solidão de mãe

(Fabrício Carpinejar - O Amor esquece de começar – Crônicas /2006)

A maternidade é uma solidão sem tamanho. Depois da festa do batizado, os conhecidos desaparecem. Podem até elogiar o bebê e fazer voz infantil em encontros esporádicos. Firma-se uma segregação silenciosa e terrível. É imposição de que a mãe saiba o papel naturalmente e possa suportar a desvalia. Enxergam o filho como um troféu, porém não reparam que o campeonato está no início. Talvez

Nenhum homem entenderá, mesmo que seja participativo. O humor muda, o corpo perde a sua rigidez e fica tão cansado que nem encontra estímulo para o sexo.

Parece que não haverá saída. Mesmo com a babá, uma escapadela de quinze minutos e já se estará telefonando apavorada para casa, pedindo relatos detalhados dos últimos instantes.

Instala-se a culpa, culpa social de aproveitar a vida, pavor social de que possa vir a ser acusada de negligente. Claro que são fantasmas. Fantasmas da vulnerabilidade.

Ainda bem que ela tem um trabalho para pensar em outra coisa e se sentir útil. Imagina o que sofreram nossas avós?

Adianto, é uma fase provisória. Não é desperdício de tempo, ainda que raros a valorizem. O filho crescerá e descobrirá isso com seus próprios olhos.

Não desanime e procure se distrair. Estabeleça horários para a sua diversão, mesmo que seja um cinema sozinha ou um passeio no parque.

A questão é preservar o raciocínio, a confiança e o humor.

Diante das dificuldades, verbalize e destile veneno. Fale o que a incomoda de cara ao marido ou aos familiares, sem deixar que a preocupação se transforme em raiva reprimida.

A risada e a espontaneidade desestressam.

Não será o jornal ou a fofoca no cabelereiro que a deixarão feliz – se bem que eu não conseguiria viver sem os dois.

O primeiro passo é fortalecer a estima, comprar – por exemplo – flores que sejam para desperta a mudança. Ou escrever um diário para sujar bastante papel e exorcizar a carência.

Não aguardar, guardar as gentilezas.

Não se deixar levar pela rotina, como se não houvesse a possibilidade de algo novo em seu dia.

Não vale se confinar no quarto e se desculpar por antecipação, pois ninguém a entenderá.

Quantas vidas enfrentam uma situação semelhante? Os amigos surgirão da vontade de convivência, da empatia, da identificação, do seu bem-estar. Os amigos são seduzidos, assim como os amores.

A exclusividade apaga a personalidade.

Viver para o filho não é bom: deve-se aprender a viver com ele.

***

Na sequencia, post com desabafos de mães no melhor estilo “esse texto foi acertado pra mim”…

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6 Responses so far.

  1. Tiffany Stica disse:

    Solidão de mãe, texto de Fabrício Carpinejar: – http://tinyurl.com/ycazspl #familia (via blog)

  2. Tiffany Stica disse:

    Blogged Solidão de mãe, texto de Fabrício Carpinejar: http://tinyurl.com/ycazspl

  3. Lucia Itamara disse:

    Ti, considero que o texto é perfeito para descrever o sentimento que é único, porém acomete a todo o gênero e se transforma sem deixar de existir e pude identificar muito nitidamenteo processo que você viveu recentemente e do qual fomos(perdoe-nos) meros expectadores, sem dividirmos com você o peso da tarefa, doce, porém árdua e solitária tarefa de ser mãe. Você tem sido exitosa e o CJ saberá disso. Parabéns mamãe.

    Tiffany Reply:

    Obrigado mãe, suas palavras são sinceras e a leve mágoa que pude identificar aí não é justa…
    Mesmo à distância e com poucas visitas/encontros vocês quarto avós tem sido presentes na vidinha do CJ tanto quanto se estivessem aqui e tenha certeza de que me ajudaria muito a presença de vocês se delas eu pudesse desfrutar para longos papos, cafés da manhã e da tarde demorados cheios de assuntos para discutir e/ou bobagens para fofocar. Talvez a solidão de mãe, de qualquer mãe, fosse menor se tivéssemos boa companhia para esses pequenos momentos do dia… Um beijo. Ti

  4. disse:

    Olha esse texto não diz tudo, mas uma boa parte do que podemos sentir a longa caminhada que é a vida de nossos pequeninos, eu sinto esse vazio com os mais velhos, que já estão mais independentes, mais confiantes de suas decisões, mais certos de seus desejos e vontades.
    A gente como mãe se doa muito, se entrega de corpo e alma aquele pequenino ser que nos é entregue ali na sala de parto, nosso amor é incondicional, nossa liberdade e entregue a ele, desde primeiro momento de concepção.
    Deixamos de lado o eu e viramos o nós, e a partir desse nos, nosso mundo se transforma da maneira mais inacreditável que possa existir, nossas bolsas antes carregadas com maquilagem, carteira e celular, agora encontrasse roupas de bebê, fraldas, lenços, mamadeiras e entre outras coisas que julgamos necessárias para o bem estar de nossos pequenos.
    Por mais que um filho seja para sempre temos que ter em mente de que a vida dele não será nossa para sempre, chegará o dia em que teremos que vê-lo partir para novas conquistas da vida e nesse dia descobriremos quem nos somos novamente.
    Um beijo com carinho

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