Solidão de Mãe – parte II

Posted by @blogdati On março - 11 - 2010 11 Comments

Uma querida amiga em enviou o texto Solidão de Mãe, do jornalista e escritor Fabrício Carpinejar, uma crônica parte do livro O amor esquece de começar. Postei* o texto anteriormente e agora, atrevo-me a compartilhar um pouco da nossa poesia, da nossa experiência como mães recentes, claro, incentivadas pelo referido texto. Se quiserem embarcar conosco nesta leitura, o convite está feito :)

Um desabafo de mãe…

Eu me senti um pouco deslocada, minto, muito deslocada. Depois da gravidez que foi de risco, muito repouso, pré-eclâmpsia, ele com pressa de nascer, cesárea as pressas com oito meses. Quando ele surgiu nos meus braços confesso que não queria largá-lo, parar de olhá-lo por um segundo sequer que fosse. O tempo foi passando e eu me dedicando totalmente, integralmente pra esse ser que roubou meu coração desde quando ouvi o coraçãozinho dele bater.

Os amigos se distanciaram sim, o pai por mais presente, sempre me pareceu ausente. Os avós para as horas boas, dos primeiros bocejos, primeiros sorrisos, até vir as pimeiras travessuras, sentar, gatinhar, murmurar algumas palavras (mamã, papá, abua, que quer dizer água), mecher as mãozinhas dando tchau, o rostinho dizendo não ou sim. Mas na hora dos apertos é você, é a mãe que ele precisa, que ele quer, e que a gente acostuma eles a ter. E quando vi os amigos ja haviam se distanciado, a amargura reprimida, a solidão instalada, confinada no quarto, no apartamento, a carência como companheira.

Já não me lembrava da ultima vez que ri de gargalhar por uma bobeira qualquer, tudo era ele. Agora quase um ano depois li esse texto, mas já havia me dado conta um tempinho atrás que preciso cultivar novamente meu jardim, para que as borboletas voltem a voar por aqui. Porque só ser mãe não basta a nenhuma mulher, preciso voltar a “seduzir os amigos” e aprender a viver com meu filho e não para ele.

Gostaria que todas as mães não precisassem passar por isso. Gostaria que elas pudessem ter sempre os jardins belos e floridos e lindas borboletas como visitantes. Gostaria que elas, todas nós soubessemos gritar por socorro mesmo em um sussurro. Que não deixassemos a carência se instalar, e os amigos se afastarem. Se eu aprendi dessa vez, não sei. penso se no segundo filho não passarei por tudo novamente. E terei que recolocar as mãos na terra para semear novamente meu jardim.

(Maria – 11.03.2010 em um e-mail para a amiga)

*******

By me…

Maria, seu desabafo foi poético e preciso. Puxa, minha querida, quantas vezes me senti assim como você e quando um convite surgia, uma visita aparecia, um novo amigo se convidava para fazer parte das nossas vidas, parece que meu coração se enchia de alegria. Creio que ainda estou vivendo, em termos, esta fase, porém agora lado a lado com o filhote, não mais com ele à frente. (Acho que fui ao encontro da mensagem do texto* do Carpinejar, afinal).

Quem dera nós pudéssemos ser mais espontâneas sempre, não apenas nesse momento super criticado e cobrado que acaba se tornando, em partes, a maternidade, mas tb ser assim como mulher, diariamente. Falando besteira, tirando sarro, fazendo reflexões, criticando, vivendo, nos permitindo oscilar entre o “mulher séria e o mulher brincalhona”.

A vida ao nosso redor, de repente, se tornou carrasca e as pessoas tem tanto receio sobre como devem agir por conta do quanto serão julgadas a partir de suas ações e opiniões que a espontaneidade se perdeu. Quando a gente se expõe, se mostra, se doa, ficamos vulneráveis e acho que em partes, quando recebemos a maior bênção de nossas vidas nos braços, talvez seja para lhes preservar desse “mundo arisco e injusto” que nos fechamos em casa, nos recolhemos para consagrá-los e com eles curtimos as primeiras novidades, as primeiras descobertas, acertos, erros, dores e frustrações oriundas tb do ser humano que éramos antes, achando que por sermos adultas, donas de si, vividas (ou nem tanto), por termos lido, pesquisado, trocado idéias, seríamos suficientemente senhoras para educá-los e criá-los.

Não acho que erramos nós, mães, de nos recolher. Sofremos com a solidão, é bem verdade. Porém sofremos mais com o jeito ora ressabiado, ora politicamente correto e às vezes claramente desinteressado de amigos que ainda não viveram a mesma experiência e por essa falta não sabem como agir ou não tem interesse em participar. Para combater a solidão e as muitas dúvidas que “pairam no ar” acho que a melhor solução é lembrar que “a graça foi dada a nós e quem dela não quiser participar, tudo bem, pois provavelmente não é pessoa merecedora disso”, assim alivio o stress e vou curtindo os amigos que ficaram, os que de repente voltaram e claro, o dia a dia das descobertas mais sublimes da vida, o que realmente só a maternidade nos traz.

Um abraço. Ti

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11 Responses so far.

  1. [...] e na fase de questionamentos que sempre surge como onda, daqui a pouco passa! Lendo o post do Blog da Ti identifiquei de cara esse meu momento com a solidão de mãe sobre a qual ela escreve. O mundo que [...]

  2. Evellyn disse:

    Ti,
    comentar esse post e o excelente texto que você indicou seria pouco. Escrevi no blog, um tanto esquecido, sobre o mesmo tema, tentando exorcizar e compartilhar essa solidão de mãe com a qual também convivo.
    Beijos e bom fim de semana!

    Tiffany Reply:

    Evellyn, fiquei feliz por constatar que vc realmente está sempre me acompanhando e mais, contente por estarmos ambas expondo um pouco dos sentimentos de mãe, da pressão, da angústia ou apenas de solidão que muitas vezes nos ronda. Obrigado por comentar… Vou correndinho procurar o seu post. Um abraço, Ti

  3. Luanna disse:

    Gostaria de elogiar o texto fantástico, como sempre, da Ti …
    acredito que esta solidão todas nós passamos, umas por mais tempo outras por menos…
    Lembro-me de uma ocasião em que estávamos em minha casa num dia em que convidamos alguns amigos para comer uma pizza, minha filha começou a chorar de cólica e tive que deixar a mesa para tentar aliviar aquela dor que, se eu pudesse passaria para mim e tudo estaria resolvido, mas como isso não é possível, lá fui eu fazer o que qualquer mãe faria… fiquei no quarto, desesperada (mãe de primeira viagem) fazendo mil coisas para livrar minha pequena daquela dor terrível…
    não lembro ao certo quanto tempo demorei, o que lembro é que quando voltei, todos já haviam terminado, estavam todos conversando, rindo, perdi boa parte das conversas e risadas e o que pareceu é que eu não tinha feito muita falta por ali… claro que isso era coisa da minha cabeça, mas foi o que senti na hora.
    Este é somente um exemplo de várias situações que aconteceram comigo, mas essa me marcou porque foi a primeira vez que reuni amigos em minha casa depois que tive minha filha.
    Hoje minha linda tem 3 anos e continuo tendo que sair dos lugares para resolver situações inusitadas, mas não me sinto mais sozinha como antes.
    Graças a Deus que tudo isso passa, assim como as cólicas…
    Luanna Turin

  4. Sabrina disse:

    Queridas amigas maes,

    Depois de ler o texto do Carpinejar, e atendendo ao pedido da Ti, decide escrever minha experiência com a solidão após o nascimento de meu primeiro filho Nicolas. Eu já estava para completer 37 anos e casada há 9. Havia muita expectativa e foi um momento de extrema felicidade, quando prometi dedicar-me integralmente ao meu recém nascido.

    Durante o primeiro mês, contei com a ajuda da família. Mãe e irmã se revezavam em minha casa. Depois, fiquei só, eu e Nicolas. Muitas horas durante o dia e também durante a mamadas da madrugada. .

    Além da solidão física, comecei a sentir uma solidão mais profunda, como se fosse uma falta de conexão com o mundo exterior. Quando passeávamos pela rua, era como se não pudesse tocar nas pessoas que estavam na calçaca, como se eu estivesse numa bolha, muito distante. Deflagrou-se, então, um processo de depressão e tive de procurar ajuda profissional.

    Hoje, com Nicolas aos 25 meses, me sinto uma mãe plena e feliz e este período difícil ficou definitivamente para trás. Redescobri meus interesses individuais como, por exemplo, a leitura, a música e a cozinha e este redescobrimento me trouxe a liberdade e o prazer que haviam desaparecido. Voltei a tocar o mundo que me cerca, a conhecer pessoas, a trocar experiências. Me sinto, enfim, parte da comunidade, da cidade – mesmo que ainda passe muitas horas “solitárias” com meu filho.

    Acho que minhas fantasias e expectativas sobre a maternidade me afastaram de mim mesma, e como consequência, sofri de uma solidão desoladora. Hoje compreendo que posso me dedicar ao meu filho muito melhor se tambem vivo integralmente e primeiramente comigo mesma.

    Sabrina

    Tiffany Reply:

    Sabrina,
    tem muito valor pra mim esses pequenos sinais de apoio e consideração pelo trabalho que eu desenvolvo espontaneamente no meu blog. Quando escrevo lá faço para me manter presente no meio virtual, na ativa em termos de comunicação sendo vista e lembrada por colegas profissionais, afinal nunca se sabe quando e se terei que voltar a trabalhar… mas principalmente escrevo porque depois de ter tido o CJ vi que realmente podemos nos isolar do mundo até nos momentos mais felizes e sem querer. Então participar as pessoas da minha vida e vice-versa, compartilhando das histórias alheias e dos comentários, isso me faz sentir mais presente, mais útil e naturalmente, mais feliz.
    Um abraço, Ti

  5. Maria Kacinskas disse:

    Ti
    So hoje tive a oportunidade de passar aqui pra dar uma olhada como ficou. Ale com 10 meses, gatinhando quase andando, é mais uma fase de muita dedicação.
    Obrigada por publicar meu desabafo e o texto que lhe encaminhei. Me fez sentir útil, porque muitas mães vão ler e se identificar. Se vamos mudar? não sei, mas desabafar com certeza.
    E é isso qe eu quero.
    bjs

    Tiffany Reply:

    Que bom Maria, sabia que você ficaria feliz e animada de participar externando suas opiniões e sentimentos… fico aqui me perguntando, com tanta informação, pelo tanto que você lê, que busca se aprofundar e por tudo que deve estar guardado aí dentro do seu coração pronto para falar ao mundo, por que vc ainda não criou um blog sobre maternidade à lá Blogdati?! Eu dou o maior apoio!
    Enquanto isso aceito suas contribuições :) Sempre bem vindas. Um beijo e boa semana. Ti

  6. disse:

    Ti, e um tanto difícil falar de solidão tendo 5 filhotes para cuidar…hehe, e você mais do que ninguém sabe que sempre tentei não me fechar para os amigos, para a vida, justamente para não perder a minha identidade, trabalhei com você tendo eles pequenos, iniciando um problema de saúde com a Kethy, depois o Dannynho, mas nunca deixei a minha vida no mundo se perder, sempre tentei manter de alguma forma um contato com o mundo exterior, pois o meu mundo interior e repleto de espaços ocupados, cada um na sua fase, cada um com seus sentimentos e frustrações.
    Se teve momentos em que me senti sozinha?Sim teve alguns momentos inteiros que me senti assim, naqueles em que a vida nos prega peças, para ver se somos realmente fortes para aguentar as diversidades que ela nos impõe.
    Momentos em que você olha para o lado e não vê absolutamente ninguém para lhe estender a mão e dizer “estou com você”, momentos e que a gente sente os amigos distantes, imersos em seus mundos e problemas, momentos em que pensamos, tenho certeza disso, seria diferente se eu não tivesse 1 ou 5 filhos. Porque podemos sentir que para alguns programas dos amigos não somos mais requisitados por termos nossos filhotes, por mais que eles lembrem da nossa presença, mas assim mesmo, filhos requerem atenção, carinho, dedicação e acima de tudo nossa liberdade, porque depois que o temos, nossa liberdade nunca mais será a mesma, principalmente para nos as mães que nos doamos tanto a esses pequenos corações que batem fora de nossos corpos.E posso dizer na experiência de 5 filhos que não troco a presença deles por nada, não procuro liberdade, pois para mim ela não fará o menor sentido sem eles.
    Tristeza, solidão e entre outros sentimentos passam, assim como a vida deles irá passar diante de nossos olhos.
    Com carinho, beijos

  7. Marina disse:

    Oi Ti.
    MARAVILHOSO seu txt….expressa muito bem o que, acredito muitas mães sentem, mas não conseguimos expressar, assim como eu. Tenho vivido um conflito muito angustiante, entre todos estes “papéis” que a vida nos pede e mais um (talvez o mais belo…), que é a maternidade.
    Me alegro em saber, que me parece bem natural todos estes sentimentos….
    Beijo,
    Marina

    Tiffany Reply:

    Marina, seja bem vinda ao Clube. A cada momento, conforme converso ou troco mensagens com mais mães, mais percebo essa “mistura de sentimentos” em todas elas, parece que não temos como fugir disso. O legal é compreendermos que estamos todas nos auto-avaliando, cobrando, refletindo e ao mesmo tempo curtindo as diferentes e maravilhosas sensações que “ser mãe” provoca em nossas vidas.
    Boa sorte pra você. E felicidades!

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