Entrevista: enfim, meu filho foi para a escola!

Posted by @blogdati On março - 5 - 2010 11 Comments

Meu filho completou 2 anos de idade recentemente. Atento, observador, curioso e vibrante, ele é uma criança saudável, graças a Deus. Muito amado e estimulado pelos pais, mas ainda filho único, achamos que o universo doméstico e mesmo os variados passeios com a mãe e o incentivo familiar passaram a ser pouco para uma fase que demanda tantas novidades e aprendizado. Assim, imbuídos pelo desejo de oferecer-lhe o melhor – sempre o melhor, dentro de cada etapa de vida, idéia comum entre os pais – pensamos que a ida para a escola fosse o ideal e assim o matriculamos.

Contei no post “Educação Infantil, muitos desafios para um universo que parece pequeno”, ontem, sobre a pesquisa e decisão pela escola mais próxima do que desejávamos oferecer a ele. Agora, avanço um pouquinho sobre este processo de adaptação e sobre meus próprios anseios…

Nesta semana o CJ completou 1 mês de adaptação na Creche/Escola. E apesar de estarmos satisfeitos com o desenvolvimento das primeiras atividades propostas pela instituição e claro, com o progresso no processo de adaptação, ainda nos colocamos frequentemente em reflexão avaliando se a escola aos 2 anos de idade é a escolha acertada. Para me ajudar com as repostas, eu entrevistei a professora, psicopedagoga e blogueira do Educar Já! e Cybele Meyer falando sobre, mãe de três filhos, Cybele Meyer (@cybelemeyer).

Minha intenção é trazer algumas dúvidas para o debate e claro, dirimir as minhas próprias, porque afinal estou – como mãe – vivendo também uma nova experiência, essa de oferecer independência ao filho, o que requer habilidade, sensibilidade e distanciamento, coisas que nem todas as mães de primeira viagem sabem oferecer.

A entrevista abaixo:

Cybele, você acha que quando a mãe pode ficar com o filho em casa, porque atua como free lancer ou porque houve a opção de se dedicar integralmente ao lar com a chegada dos filhos, ela deve mandar os filhos para a escola antes do período de alfabetização, período obrigatório?

A escola nesta fase que o CJ está (2 anos) é muito importante para a socialização que é desenvolvida de forma harmoniosa e tranquila.  A convivência com crianças da mesma idade é muito saudável e estimula o desenvolvimento da confiança em si e consequente independência. Nesta idade a criança inicia seu processo de descobertas e realizá-las em companhia de amigos da mesma idade é muito mais atraente e eficaz. O egocentrismo, presente desde os primeiros anos, tende a ser minimizado com a convivência escolar, pois as crianças são estimuladas a emprestar, dividir, compartilhar, esperar a vez…

Ter a segurança do afeto e da presença da mãe, em casa, nessa faixa etária não seria garantia maior de sucesso na educação e na segurança emocional da criança ao longo de sua formação como indivíduo, facilitando inclusive o aprendizado e as relações futuras com outras crianças quando a fase da escolarização obrigatória chegar?

A segurança tanto da presença quanto do afeto da mãe será importantíssimo sempre, independente de ir para a escola com um, dois ou seis anos. A firmeza das ações da mãe em parceria com as ações da escola será fundamental para que a criança perceba que tudo o que está acontecendo em sua vida tem o amparo da mãe. Por esta razão o demonstrar segurança na ocasião da adaptação ajuda muito o filho a enfrentar esta “separação” com mais tranquilidade. Se a mãe demonstra insegurança a criança se sentirá completamente perdida. Por esta razão a firmeza nas ações da mãe é de fundamental importância em todas as fases da criança. A criança tem que sentir que há alguém “mais forte” que a protegerá.

Se a criança iniciar seu processo de socialização tarde, terá dificuldades em se relacionar, pois não estará acostumada a interagir com a dinâmica das crianças da sua idade. Logo, o ir para a escola com mais idade, não será um fator facilitador da socialização. Dependendo do tipo de rotina que desenvolvia em casa também não apresentará um bom desenvolvimento da linguagem oral, da noção espacial e lateralidade, noção temporal, enfim não terá sido estimulada em suas competências e habilidades influenciando diretamente no processo de alfabetização.

Sobre a mãe que antes do filho tinha uma profissão e possivelmente uma carreira ou então cumpria a função de dona de casa com maestria, ainda que pudesse haver estresse e pressão de diferentes fontes, era dona da situação e tinha total controle sobre si. Como mães muitas mulheres perdem um pouco esse “controle” e a ansiedade em manter tudo como era antes pode se manifestar na sua relação com os filhos. Há casos, seguindo essa linha de pensamento e baseando-nos na sua experiência, em que as mães colocam os filhos na escola muito cedo para voltar a encontrar essa independência?

O ser humano tem valores, metas e prioridades com focos diferentes, porém isso não afeta o resultado final. O filho que nasce de uma mãe que prioriza a sua profissão irá bem cedo, com seis ou oito meses, para o berçário. O fato de ela priorizar a profissão não quer dizer que deixa o filho em segundo plano. Ele integra o contexto familiar e se adéqua às necessidades. As preocupações e as angústias são as mesmas, porém ela se sente ainda mais pressionada em razão de ter uma boa profissão e querer conservar isso. Há mães que não podem, de forma alguma, abandonar o trabalho porque os compromissos assumidos antes do nascimento do filho contam com a sua contribuição. Esta é a realidade da maioria das famílias brasileiras. A mulher trabalhar fora não é mais um “capricho” e sim uma necessidade e quando se tem um filho esta necessidade aumenta e muito. Porém o filho não se sentirá menos amado em razão disso. Se a mãe for participativa e souber administrar sua presença na vida do filho, este não terá carência de espécie alguma.

É perceptível que a frequencia de uma criança na escola contribui muito para o seu aprendizado e desenvolvimento. Reportagens e pesquisas, além dos relatos de mães comprovam que a “fala”, o “vocabulário” e a “troca” aumentam muito, garantindo que a socialização e a interação entre as crianças dessa faixa etária seja muito boa. Parece que a criança alcança mesmo muita independência e passa a ter mais iniciativas do que quando no convívio exclusivo do lar. Poderíamos dizer que há notada diferença no desenvolvimento de crianças de 2 anos que frequentam ou não a escola?

Com certeza! Todos os ambientes da escola são voltados para o desenvolvimento da criança. Todas as brincadeiras e atividades têm como objetivo estimular o desenvolvimento das habilidades da criança. Por mais que os pais se esforcem não há como competir com o ambiente escolar, principalmente porque há profissionais especializados para este fim. Nos primeiros anos de vida a criança está aberta à exploração e à experimentação. Sua curiosidade está completamente aflorada e seus canais estão receptivos para todo tipo de estimulação. A criança será trabalhada de forma lúdica e seu aprendizado será prazeroso. O desenvolvimento de suas habilidades será de fundamental importância no momento da alfabetização. Se a criança for pronta para o primeiro ano, sua alfabetização será tranquila e sem estresse. Ela terá desenvolvida a coordenação motora fina propiciando desenvoltura e movimentos corretos na escrita; saberá se situar no caderno e entre as linhas porque desenvolveu sua lateralidade e a noção espacial; escreverá de forma harmoniosa, sem o põe e tira o lápis do papel,  porque seu ritmo foi desenvolvido satisfatoriamente, e assim por diante. Se a criança ingressa na escola com 4 ou 5 anos a possibilidade de ela ter adquirido certos “vícios” (como pegar errado no lápis) é muito grande, e o não ter se apropriado dos conceitos fundamentais para o seu desenvolvimento será fator de dificuldade.

Quando se trata de uma criança que é filho único e recebe atenção exclusiva da mãe, babá ou avó por 2 ou 3 anos sem o vínculo com a escola, sua entrada em outra rotina e atividades pedagógicas pode ser marcada por dificuldades maiores do que a criança que ingressou, digamos, ao término da licença-maternidade e assim habituou-se aos cuidados de terceiros (funcionários da creche/escola) sem opção diferente?

Com certeza! Vivemos em sociedade e ter contato com as pessoas é fundamental para todo o tipo de aprendizagem seja cognitiva, social ou psicológica. O amor dos pais é fundamental e não há convivência escolar que substitua. A criança tem plena noção desta diferença. O fato da criança entrar feliz na escola não quer dizer que goste menos dos pais por isso, muito pelo contrário, este comportamento mostra que ela está segura do amor que recebe dos pais e pode ficar em qualquer lugar que eles a levem. Já a criança que vive na redoma do lar em contato somente com a mãe, babá ou avó se sentirá atemorizada em ambientes diferentes porque acredita que somente estará protegida na sua casa e ao lado delas. Criamos nossos filhos para a vida e lhes dar a segurança de que não importa onde estejam sempre terão a proteção e o amor dos pais desenvolve a autoconfiança tão importante para o convívio e desempenho social.

E a criança pequena de 2 anos que tem como opção ficar em casa com a babá ou, melhor que isso, com a mãe, mas vai para a escola/creche visando socializar-se, mas chora… A criança não briga nem tenta fugir da escola, mas lá permanece triste, cabisbaixa ou chorosa, ainda que participando das atividades do grupo. Ela deve ser retirada da escola e voltar para o convívio apenas doméstico? Seria um sinal de que não está “madura” para essa nova etapa?

De forma alguma. A mãe deve estar sempre muito segura quando resolve colocar o filho na escola para lhe passar esta segurança contribuindo com sua adaptação. Há crianças que demoram mais, outras menos, mas todas se adaptam. Não há como a criança ficar “cabisbaixa ou chorosa, ainda que participando das atividades do grupo” o tempo todo. No processo de adaptação estas reações vão se minimizando com a constância e a convivência escolar. O não faltar nesta fase é de fundamental importância. Os pais que levam o filho até a porta da escola e quando ele se agarra no pescoço não querendo entrar o levam embora estão reforçando este comportamento. No dia seguinte ele fará a mesma coisa e com mais intensidade porque no dia anterior “deu certo” e ele voltou para casa. Os pais que insistem, conversam bastante antes e depois da escola, perguntando e valorizando tudo que a criança fez no período escolar, estão contribuindo e muito para que a criança se sinta segura e perceba o quanto é gostoso frequentar a escola e que isto está deixando seus pais felizes.

Agora o tirar a criança da escola ou ficar trocando de escola porque acha que na outra irá se adaptar é um engano que promove resultados desastrosos. O chorar é a maneira que a criança tem para argumentar que não quer sair da sua zona de conforto (a sua casa). Se ela chora e a mãe fica desesperada e não a leva mais, no próximo ano a adaptação será duas vezes mais sofrida porque ela tentará de todas as formas convencer novamente que não quer ficar. Já presenciei o caso de criança com sete anos que chorou mais de cinco meses para entrar e que de hora em hora chorava perguntando se a mãe já estava chegando. Após cinco meses, finalmente adaptou-se e então veio as férias. O retorno foi com o mesmo comportamento do início, como se ela nunca tivesse freqüentado a escola Sofre a criança, sofre a mãe e sofre a professora. O ideal é estar segura no momento de levar a criança para a escola e lhe dar todo o suporte para que se adapte bem e rápido.

***

[pós entrevista] Exatamente sobre o tema “regressão na adaptação escolar” li hoje matéria muito legal na Revista Crescer (se quiserem espiar por lá*) e num outro momento venho debater isso aqui no Blogdati. A propósito, a foto desse post retirei da matéria da Crescer, me lembrou a história que minha sogra conta sobre o primeiro dia de aula do meu marido. Ela o espiava pela janela quando ele, envergonhado, fez sinal para ela ir embora! :)

Como podem ver meus questionamentos são muitos… e naturalmente minhas perguntas e reflexões não parariam por aqui, mas acho que já é suficiente para elucidar algumas idéias e conceitos que podem até estar equivocados.

E você o que acha?

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11 Responses so far.

  1. Tiffany Stica disse:

    Blogged Entrevista: enfim, meu filho foi para a escola!: http://tinyurl.com/ycrsrge

  2. Tiffany Stica disse:

    Entrevista: enfim, meu filho foi para a escola!: – http://tinyurl.com/ycrsrge #familia (via blog)

  3. Patricia Assis disse:

    Ti, a Malu minha mais velha tem 2 aninhos e tbm começou na escolinha esse ano, pelos mesmo motivos que o seu pqno, com o adendo de uma vó que acha que é a mãe(momento briguinha de familia, passou) E tdo isso tbm me passou pela cabeça nos primeiros dias, principalmente qdo ela ficava chorando. Aí Dn. Gorete, Minha mãe, no alto de toda sua sabedoria delicada me disse: “Minha filha, vc tem que fazer com ela o que acha que é certo. Vai ter um monte de coisas que ela não vai concordar qdo ela crescer sendo certo ou sendo errado e o que é certo pra vc pode não ser certo pra mim”. Traduzindo: Use o coração. Ninguem acerta sempre nem agrada todo mundo.

    bjos

  4. Tiffany Stica disse:

    New Blog Post Entrevista: enfim, meu filho foi para a escola! http://ow.ly/16JjYQ

  5. Papo #maecomfilhos entrevista com @cybelemeyer no @blogdati: Enfim, meu filho foi para a escola! http://bit.ly/drCa8g

  6. Pequeno Geek disse:

    RT @samegui: Papo #maecomfilhos entrevista com @cybelemeyer no @blogdati: Enfim, meu filho foi para a escola! http://bit.ly/drCa8g

  7. Isabel disse:

    Ti, gostei muito da entrevista. Mas acrescentaria outras mil perguntas :)
    É difícil ser mãe porque as indecisões, as dúvidas são muitas e constantes, mas a gente aprende com eles no dia a dia e isso é o mais bacana. Eu tenho certa ansiedade sobre mandar a minha filha pra escola, acho que ela só irá com 3 anos e não creio que ficará mais mimada por isso, ainda assim, claro que penso em todos os benefícios de ficar com ela mais tempo em casa e nas coisas que pode estar deixando de somar por ainda não ir numa escolinha. Deixando de ganhar, de lhe acrescentar, porque perdendo acho que não está.
    A gente se cobra muito, né?!
    Vivendo e aprendendo. Beiijinhos. Isa

  8. Juliano disse:

    Oi Ti,
    Só pra dar o parabéns pela entrevista, é o blogda Ti crescendo. Muito legal a ideia.
    Um beijo

  9. Aline disse:

    As crianças só têm a ganhar indo para a escolinha. A convivência com pessoinhas da mesma idade acrescenta muito no desenvolvimento de sua personalidade. Eles se tornarão adultos mais independentes, auto-confiantes e plenamente capazes de enfrentar o mundo adulto. Ficar grudado na saia da mãe ou da vó os tornam inseguros… Antes dos dois anos pode ser cedo devido à vulnerabilidade à doenças, mas depois disso é indispensável. Beijos, Ti.

  10. Martha disse:

    Vou ter que discordar da entrevistada quando ela fala de insistirmos em deixar a criança cabisbaixa e chorosa na escola, mesmo que participando das atividades. Isso aconteceu com meu filho que foi pra escola com 2 anos e 8 meses, porque ele pediu. Pois ele teve uma decepção muito grande na escola (na perspectiva dele, claro), com tres semanas, a ponto de eu desistir de levá-lo para ESTA escola. Na semana seguinte ele começou a adaptação em OUTRA escola e foi muito melhor para ele. Ele estava visivelmente mais feliz na segunda escola. Acho que os pais devem observar de perto e, para mim está claro, não é normal o filho chorar para ir pra escola, sobretudo se ele pediu antes para ir!

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